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Boa Noite, de Pam Gonçalves

Depois da onda de denúncias que ocorreram em Hollywood sobre abuso sexual, me lembrei do livro Boa Noite, escrito pela Pam Gonçalves e publicado pela Galera Record em 2016. Apesar de ter lido no ano passado, percebi que ainda não tinha escrito a minha opinião, então resolvi publicar essa resenha para compartilhar o meu amor por essa obra.

Editora: Galera. Ano de Lançamento: 2016. Páginas: 240.
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A culpa não é sua!

Alina é a típica mocinha boazinha: ela é boa aluna, boa filha e uma boa menina. Não fez nada de errado durante toda a sua vida e, ao se mudar para cursar Engenharia da Computação na universidade, quer mudar. Mas ao entrar em uma sala repreta de garotos e ainda morar em uma república mista - com pessoas de todos os tipos -, percebe que o mundo não é tão lindo assim.

Preconceito, abuso sexual, drogas e machismo faz parte de sua nova rotina. A vida de uma garota em uma universidade não é tão fácil. Ela tem que lidar com os colegas de sala tentando a dissuadir a não fazer o curso já que ela é uma mulher - e não boa o bastante -; com um ranking feito por homens em que listam as garotas que lá estudam em uma escala de quais são mais "fáceis"; com alguns caras tentando drogar as mulheres nas festas e estuprá-las; e ainda com a sua vida amorosa e com as novas amizades. Sim, não é tão simples assim. Mas Alina não desiste e, com ajuda de outras meninas, atravessa cada obstáculo e consegue provar que ela não consegue, só por ser mulher.

"Ao contrário do que somos educadas a pensar, as outras mulheres não são nossas inimigas, mas sim nossas irmãs. Um time. O exército que precisamos proteger. ”

Quando falamos em feminismo, sempre tem aqueles para tentar "manchar" a luta e divulgar coisas que não são do movimento. Feminismo, para quem não sabe, nada mais é que a luta por direitos iguais. Eu estar aqui, na internet, compartilhando a minha opinião com vocês sem precisar pedir autorização para ninguém, ter a opção de trabalhar/casar/ter filhos/divorciar se eu quiser e até mesmo poder votar, é graças à ele. Eu não quero ser superior a nenhum homem, só quero ter os mesmos direitos e deveres que ele. Só isso.

E a nossa sociedade, infelizmente, é criada para ser machista. E isso afeta não só mulheres, como também os homens. Os homens não podem chorar? Por quê eles tem que pagar mais em baladas? Por quê eles tem que ser obrigados a se alistarem no serviço militar? As explicações, quando dadas, estão aliadas ao machismo e a luta pela igualdade também os afetam. E uma das coisas que mais tentamos conseguir é sobre a violência. Violência doméstica está presente, o femicídio - a mulher ser morta por ser mulher - está aumentando ao longo dos anos.

Livros como Boa Noite, escrito para os jovens, é um dos resultados desse movimento. O feminismo é claro ali, sem que o conceito seja falado toda hora. Não é necessário, já que as ações falam mais do que as palavras. O preconceito que a Alina e suas colegas de sala sofrem por serem mulheres em um ambiente totalmente masculino é forte. Os professor e colegas de sala não acreditarem em seus potenciais só por serem mulheres é enervante. As meninas da universidade terem um ranking de acordo com a maneira que elas agem pelo sexo oposto é horrível. Elas serem drogadas e estupradas é para fechar a lista de coisas desumanas. Não tem uma palavra para definir tudo o que ela mostra, senão realidade.

Tudo o que ela demonstra é a realidade do mundo. As mulheres sendo subjugadas como se não fossem boas o bastantes. Serem abusadas sexualmente em todos os lugares - casa, escola, trabalho e rua - como se os homens tivessem o direito de fazerem isso. Além de passarem por essa humilhação, podem ainda não terem o desejo de fazer  B.O., pois sabem que muitas pessoas não acreditarão em suas palavras - e ainda vão apoiar o abusador.

Diante de tudo isso, uma das poucas coisas que eu não gostei na leitura foi que a maneira que a Alina se descreve e como ela age são duas coisas bem diferentes. Ela, no começo, fala que era uma nerd, não sociável e que queria mudar quando chegasse na universidade. Porém, quando chega dá a "louca", vai para as festas e namora. Não há nada de errado nisso, aliás, mas é difícil uma pessoa mudar tão drasticamente da noite para o dia, né? Ainda mais sabendo que, pelo menos o que foi mostrado, é que ela não tinha amigos. Então como ela faz amizade e conversa em festas tão facilmente? Alguma coisa estava errada e simplesmente não colou.

Depois de um tempo eu deixei isso de lado e me foquei na história maravilhosa. É o tipo de livro que eu recomendaria para todas as mulheres, pois, acima de tudo, a Pam consegue deixar bem claro em sua narrativa que a vítima não tem culpa do abuso sexual. Nós não temos culpa se somos assaltados na rua, então por que tentam nos culpar por um estupro? Isso é inadmissível e acabamos sendo duplamente violentadas: quando ocorre o crime e quando tentam minimizá-lo, nos culpando e tentando nos dissuadir - seja para não fazer denúncia ou encobrindo dizendo que é mentira.

É por isso que é lindo ver mulheres se apoiando. É lindo ver a maioria das pessoas vestindo preto no Globo de Ouro em denúncia aos abusos sexuais sofridos em Hollywood. É lindo ver que algumas pessoas dão valor as denúncias, dando, pelo menos, o benefício da dúvida e não descartar logo dizendo que não é verdade (ou dizendo que elas querem ganhar fama/dinheiro ou está tentando destruir a carreira de alguém). E é lindo ver que esse é a primeira obra que a Pam publica e ela consegue fazer um bom trabalho.

Ela traz todos os assunto com naturalidade, tratando-os como realidade, e nos mostra o seu ponto de vista sobre os assuntos sem tentar dar uma aula didática - como acontece com alguns livros que tratam sobre isso. Com uma narrativa em primeira pessoa e apenas 240 páginas, nem todos os tópicos inseridos são aprofundados, dado a sua limitação. Porém ela consegue entregar uma história coesa - com começo, meio e fim -, além de cenas cômicas, romance e drama bem administrados sem sair do ritmo.

Não há cenas de sexo, mas mostra o ambiente universitário, então eu posso até recomendar para os adolescentes, desde que estejam cientes dos temas abordados. Em uma edição simples da Editora Galera Record, não encontrei erros na revisão, então a leitura fluiu com leveza - apesar da trama. Uma história aparentemente simples e real, mas que podem abrir as portas para os debates. Vale a pena para todas as pessoas que desejam entender como realmente é o papel da mulher nessa sociedade machista.

Geekerela, de Ashley Poston

Depois de ler dois livros maravilhosos (Tartarugas Até Lá Embaixo e Sorrisos Quebrados), mas que tratam de temas importantes e sérios, resolvi que precisava de algo leve e rápido de se ler. Ao olhar a minha estante, encontrei o livro Geekerela, uma releitura de Cinderela nos tempos modernos, escrita pela Ashley Poston e publicado pela Editora Intrínseca no ano passado. Resolvi então que seria a minha terceira leitura do ano e acertei em cheio na escolha.

Editora: Intrínseca. Ano de Lançamento: 2017. Páginas: 384.
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Um conto de fadas geek e encantador

Acho que todos conhecem a história de Cinderela, não é? Menina órfã, praticamente escravizada pela madrasta e suas duas meio-irmãs; quer ir ao baile do reino, mas a madrasta não deixa, fazendo com que só as suas filhas tenham a oportunidade de conhecer o príncipe; uma fada madrinha veio e lhe fornece as condições de ir para o baile; conhece o príncipe, amor à primeira vista, mas chega a hora de ir embora; perde o sapato antes de deixar o castelo; o príncipe acha, tenta colocar o sapato nos pés de todas as mulheres do reino até encaixar no de Cinderela; se casam e vivem felizes para sempre, certo?

Histórias clássicas sempre possuem releituras e com Cinderela não foi diferente. Nesta versão teremos Danielle (olá, xará!), ou Elle, que é muito fã de Starfield, uma série de ficção científica, parecida com Star Wars e Star Trek. Apesar de não ter vivido na época em que passou na TV, herdou a paixão dos pais, que se conheceram por causa dela. Porém o seu pior pesadelo virou realidade: a série terá uma refilmagem e o ator escolhido para o personagem principal é um astro teen: Darien.

Darien é um ator famoso, mas cresceu como um nerd e fã de Starfield. Ganhar o papel principal no remake é um sonho se tornando realidade, algo que ele faria até de graça. Ele tem a sua própria bagagem emocional, com problemas familiares e ex-amigos traidores. O que não precisa é aumentar as dificuldades atuando de maneira ruim e decepcionar os fãs da série, além de ter que se preocupar com uma blogueira que odeia tudo o que ele faça. E o destino, aquele ser traiçoeiro, entrelaça a vida dos dois de uma maneira que eles não imaginariam.

Acrescente um emprego em um food truck chamado Abóbora Mágica; um dachshund marrom que rouba algumas cenas; uma madrasta e meias-irmãs que fazem a vida de Elle um inferno; uma colega que se torna uma fada madrinha e a melhor amiga que você poderia precisar; um segurança calado, mas que é um grande apoio; e um pai que só pensa no filho ganhando fama. Eis Geekerela.

A realidade nunca é tão boa quanto a nossa lembrança.

Ashley Poston conseguiu criar uma versão totalmente modernizada: a Cinderela é uma nerd viciada em ficção científica e blogueira; o príncipe é um astro negro de uma série adolescente; uma das meio-irmãs quer ser youtuber; a fada madrinha é uma punk lésbica de cabelo colorido; e a abóbora é um carrinho de food truck vegano. O pano de fundo é o mesmo, mas ela conseguiu criar a própria história em cima de uma releitura.

O que eu não gostei foi que a Elle é uma menina insegura e que, ainda por cima, não faz nada para mudar a sua situação com a família. Ela simplesmente aceita tudo calada. Em alguns momentos isso me deu raiva, pois se fosse comigo eu não conseguiria concordar, sabe? Eu estava com vontade de entrar dentro da história e falar algumas coisas para a madrasta.

Lógico que, depois de um tempo, fiquei pensando: será que isso não foi uma consequência da criação que ela teve? Elle perdeu os pais quando era criança e, depois disso, cresceu com a madrasta infernizando sua vida e dizendo para todos o quanto é boa por aceitar criar uma menina que não é sua própria filha. Acho que, depois de muitos anos assim, ela não tinha segurança o bastante para falar o que pensava - pois ela pensava muito, mas não reagia. Por outro lado, isso não quer dizer que não me incomodou também. O bom é que a personagem amadurece, depois de uma parte do livro, e consegue se impor, além de aprender algumas lições. Fiquei aliviada.

Em contrapartida, o universo geek criado e a paixão de um fandom foi transmitida com sinceridade. Se você é fã de algo, vai se identificar com a história, que mostra os bastidores de toda essa loucura. É uma homenagem para essas pessoas, principalmente aqueles que adoram ficção científica, pois ela tenta transmitir esse amor dos personagens para quem lê. A sensação de entender certas referências é incrível.

Enquanto isso, o livro é dividido em três partes: Apontar para as estrelas, mirar e disparar. Esse é como o "lema" da série, uma frase icônica que ficou marcada e é constantemente repetida durante a narrativa. Esta, aliás, é feita em primeira pessoa, intercalando os pontos de vista da Elle e do Darien, o que nos dá um melhor panorama da história. Além disso, é leve e fluída, já que o público-alvo é adolescente. Uma história super fofa que pode te tirar de uma ressaca literária - ou te deixar em uma.

A edição publicada pela Editora Intrínseca é simples e bonita: orelhas grandes, folhas amareladas e detalhes encantadores, além de uma boa tradução e revisão - onde não vi erros.  A capa é adorável, baseada na original, mas que apresenta corretamente os personagens. Não se esqueça: é uma obra que simplesmente tem um propósito de te contar sobre um romance entre adolescentes, nada grandioso demais. É ótimo para passar o tempo e se distrair. Se você sabe disso na hora de escolhê-lo, eu lhe digo que é uma leitura que eu recomendo muito. E o mais importante:

Apontar para as estrelas. Mirar. Disparar.